Yoga e Artes Marciais

Yoga e Artes Marciais

Publicado por: Ciani Marques Publicado: 30/07/2019 Visitas: 377 Comentários: 0

Eu sempre achei que agressividade era o oposto de passividade. Demorei alguns anos para realmente compreender que, na dualidade da vida (bem e mal, luz e escuridão, amor e ódio, céu e terra), existe um fator que une os dois extremos, tornando-os complementares. O que seria o bem, se não existisse o mal? Como evoluiríamos, se não houvesse os tropeços? Constantemente me perguntava: como eu poderia alcançar a verdadeira felicidade, quando dentro de mim existiam tantos sentimentos “negativos”? Com o tempo consegui realizar que somos isso: luz e escuridão, felicidade e tristeza, Shiva e Shakti, somos Yin e Yang. Da mesma forma que dentro de cada ser existe o feminino e o masculino, é inegável afirmar que, além de luz, possuímos sombras e que devemos acolhê-las. Dentro desta perspectiva, resolvi eliminar da minha mente que para ser uma yogini respeitável eu não poderia sentir raiva. Resolvi deixar de lado aquela visão simplista de que, para ser uma pessoa eq     uilibrada, não devemos errar ou sentir coisas ruins. Sendo assim, abracei o meu lado Yang, minha “masculinidade” e resolvi enxergar esses aspectos como características únicas que me representam, diferentemente do que a sociedade espera de mim. Com isso, entendi que poderia ser uma mulher que gosta de lutar, num ambiente majoritariamente masculino (assim como quase toda a minha vida) e ao mesmo tempo ser leve e firme como uma yogi.

O Muaythai me acompanha desde os meus 14 anos, quando, por incentivo da minha mãe, que também praticava, comecei a treinar. Nunca mais parei e adentrei ainda mais ao mundo das artes marciais depois que comecei a namorar meu marido, que é lutador. O Muaythai vem da Tailândia e lá a cultura da luta é bem diferente do que vemos por aqui, no Ocidente. Foi através do Muaythai que descobri minha força, perdi a timidez e aprendi a ser mais eu mesma, além de tantas outras coisas. Depois de um tempo, meu marido me apresentou à minha professora de Yoga, Fabiola, numa época em que eu não podia treinar devido a uma lesão. Me apaixonei pelo Yoga e me redescobri. Percebi que, eu, na verdade, conseguia sim meditar, conseguia sim ser delicada, e vi, ao mesmo tempo, que o Yoga nem sempre é tão “zen” assim. Ela me ensinou muito sobre ser mulher e ser forte, “sanguínea”, intensa e cheia de feminilidade ao mesmo tempo. Me encorajou a seguir no caminho do Yoga quando nem eu sabia deste meu potencial e me ajudou a chegar onde estou hoje, como mulher, mãe e também como professora. Nesse caminho, no meu curso de formação em Hatha Yoga Integral, tive muitos insights pessoais, a partir de muitos questionamentos a respeito do meu ser e do que eu busco nesta vida.

Foi através destas reflexões que comecei a perceber a grande relação entre os “extremos”, a Luta e o Yoga. Durante as aulas filosóficas com meu professor, Govinda, discorríamos sobre o Deus Shiva (o Destruidor e Regenerador) em uma aula, quando nos deparamos com algo que me deixou curiosa: o mesmo deus que os hindus consideram “o criador do Yoga”, segundo textos sânscritos, seria também o mesmo deus que criou as Artes Marciais. Isso me despertou uma grande vontade de buscar a relação entre estas duas artes, que, antes, para mim, pareciam antagônicas. Depois de algumas pesquisas, consegui entender muito, porém creio que apenas pisando em solo asiático e regiões hindus, originalmente habitadas pelos primeiros povos e sociedades, conseguirei de fato compreender tudo que desejo conhecer. As Artes Marciais surgiram em contextos de guerra, de milhares de anos atrás. Na perspectiva Hindu, a luta e o combate sem armas eram parte de um treinamento para possíveis guerras e disputas de território. Curioso também analisar que os guerreiros antigos utilizavam o Yoga desde a antiguidade como forma de centrar e manter a mente equânime para se viver através da luta. No entanto, com o passar do tempo, a cultura da luta se manteve, mesmo em períodos de paz. Os próprios Vedas (escrituras antigas de religião e literatura indiana) mencionam combates e tipos antigos de artes marciais na India, o que nos leva a compreender a utilização de métodos do Yoga (pranayamas, mudras e pontos focais para meditação, presentes no Yoga Sutra de Patanjali), nas artes da guerra para vencer e derrotar o inimigo. No decorrer das minhas pesquisas cheguei à seguinte conclusão: o yoga é a maneira com que lidamos e compreendemos nós mesmos e a luta é a forma com que lidamos com o outro e superamos nossas adversidades. E a parte mais importante: existe um meio considerável entre estes dois em que eles se misturam e se entrelaçam. Ambos nos ensinam Autoconhecimento, Autocontrole, Disciplina, dentre vários outros pilares que norteiam as duas bases filosóficas. A luta se dividiu em várias modalidades ao longo da História da humanidade, assim como o Yoga se dividiu em várias linhagens e metodologias, mas os preceitos básicos e a similaridade das duas artes, em suas origens, me encantou de uma forma indescritível.

Mas então como praticar as duas artes se nos Yoga Sutras Patanjali descreve Ahimsa (ou não-violencia) como um dos Yamas? Não seria luta uma forma de violência? Entendo que todos os Sutras são abertos a interpretação pessoal. A meu ver, a luta como forma de defesa pessoal não é violência. A luta como forma de bem-estar, como atividade para melhoria de um aspecto pessoal ou mesmo como hobbie, não é violência. Os tempos mudaram. Hoje mais e mais pessoas adquirem culturas milenares como um lifestyle e isso realmente as acrescenta algo relevante, especialmente quando se trata de artes vindas do Oriente. De acordo com Patanjali, uma mente equânime e estável não precisa reagir a estímulos externos de ameaça, porém deve observar a mente trabalhando. Portanto, creio que o que mais aprendi numa aula de luta é a supressão do ego, a não competição (ou saber a hora de competir), controle das oscilações mentais, além do controle respiratório e resistência física, claro! E como discorri acima, o próprio Yoga possui alguns desses aspectos como objetivo final. Outro ponto muito curioso e de certa forma, engraçado, observando os 8 pilares do Yoga (Yama, Nyama, Asana, Pranayama, Pratyahara, Dharana, Dhyana e Samadhi) podemos coincidentemente comparar aos 8 membros que utilizamos no Muaythai (Canelas, Joelhos, Cotovelos e Punhos) aonde em ambas as modalidades podemos representar através de uma simbologia com uma árvore: o tronco com ramos e galhos que se dispersam (o tronco é o centramento individual, os galhos as formas de se chegar ao seu objetivo).

Foi através de tudo isso que surgiu o Yogathai, modalidade criada por mim, que trabalha tanto movimentos de Muaythai (utilizando 8 membros do corpo) quanto flows de Yoga (sequências de asanas, pranayamas e meditação). Com ajuda de algumas pessoas que me ajudaram a substanciar a ideia, como minha irmã, que, como preparadora física, me ajudou a estruturar a aula, formulei uma aula comercial para pessoas que desejam conhecer ambas as atividades, de uma forma diferente. E por que não praticar separadamente? O Yoga da minha aula abrange todas as linhagens, sem restrições, tudo é yoga, porém são movimentos mais dinâmicos do que numa aula tradicional. Já a parte da luta, deixei mais individualizada, de uma forma que não se exige tanto contato, e, portanto, possibilita menos lesões. É uma prática mais pessoal, onde você “luta “com você mesmo, mas aprende todos os movimentos corretamente e da melhor forma possível pro seu corpo. Uma ótima forma de se exercitar e conhecer mais os limites e a abrangência do seu corpo, numa aula intensa que trabalha tanto corpo, quanto a mente e a alma.

Esse estilo de vida que mistura Yoga e Artes Marciais tem sido cada vez mais procurado nos dias de hoje. Domínio da mente, domínio de energia, domínio do corpo, todos são adquiridos por ambas as práticas. As pessoas têm buscado mais o autoconhecimento, tem buscado mais saúde e longevidade, bem-estar... É como se Yoga e Artes Marciais fossem o Yin e Yang: se complementam perfeitamente. Nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. O yoga ensina que para uma mente satvica (equilibrada) precisamos encontrar o meio-termo mediante as oscilações diárias do cotidiano. Quando praticamos Yoga, lidamos com nossas emoções, com o objetivo de chegar ao samadhi. Praticar Yoga e Artes Marciais é viver melhor, é mergulhar no Autoconhecimento, é despertar.

SOBRE A AUTORA

Estudante de Psicologia e empreendora, trabalha no ramo da beleza há 8 anos. Nos últimos doze meses, sentiu o chamado para passar a dedicar maior parte de sua vida a uma nova caminhada: ainda dedicada à beleza - dessa vez, porém, à beleza aplicada à essência e ao espírito.

Praticante de yoga há quatro anos, é hoje professora de Hatha Yoga Integral, certificada através de vivência transformadora de 200h com o mestre Govinda (Alexandre Moretto).

Praticante ainda de Muaythai há oito anos e instrutora da academia Pedro Novaes Muay Thai - uma das maiores e mais prestigiadas academias de luta do Brasil, entendeu que mesmo o que parece extremo, pode ser, na verdade, complementar. Nesse sentido, criou a modalidade Yogathai, unindo fundamentos da luta e da yoga para colaborar no desenvolvimento de pessoas com domínio de suas mente, energia e corpo.

 

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