Spinoza e Deus visível

Spinoza e Deus visível

Publicado por: Satyanatha Publicado: 26/04/2019 Visitas: 150 Comentários: 0

O Rei Felipe não gostava deles.

Talvez, na verdade, gostasse era demais: a comunidade deles era o saco-de-pancadas preferido do monarca, o bode expiatório, a desculpa esfarrapada para qualquer problema. Eles eram judeus em Portugal, por volta de 1600. Tudo que acontecesse de ruim — doenças, marés, tempestades e derrotas militares — era culpa deles, que afinal, eram pecadores e não aceitavam o Cristianismo. A inquisição portuguesa era das piores.

Os que decidissem ir embora podiam, sim, levar as suas coisas a outros países — mas não o dinheiro, que ficaria com a Coroa. De bolso vazio, carregando móveis velhos, lá foi a família Espinosa, com coragem e medo juntos, rumo a uma vida melhor. Acabaram por se fixar em Amsterdam, onde as pregações de Martin Lutero haviam enfraquecido o fervor católico e o ar era mais ameno para os judeus.

Ali, na nova morada da família Espinosa, nasceu um menino meio fraquinho, muito calado, que iria se tornar o maior filósofo de seu tempo. O nome dele era Benedito.

Sob sua pena, morreu toda a filosofia da Idade Média.

 

 

Antes de Benedito Espinosa, os pensadores da Europa concebiam Deus como um humano. Um grande humano, O Grande Humano; infinito em sabedoria, terrível em suas iras, caprichoso em seus desejos, invencível e incognicível. Mas humano na maneira de agir e ser.

Era, esse Deus, a imagem do próprio homem. Um Deus meio bravo, meio mal-humorado; que precisava ser apaziguado ou teria acessos de fúria; que cuidava de seus filhos favoritos mas exigia respeito; que amava profundamente mas punia por toda a eternidade aqueles que insistissem em se opor.

Benedito — ou, como ficou mais conhecido, Baruch de Spinoza — via Deus de uma maneira bem diferente. E foi investigá-lo, armado de sabedoria e observação, usando razão e lógica onde havia superstição e medo.

Não foi fácil. Spinoza era inteligentíssimo e apto para a tarefa. Mas mais desafiador do que pensar é resistir às reações contra o pensamento. Baruch foi expulso de sua sinagoga ainda bem moço, aos 24 anos, por suas ideias revolucionárias. Um dia, foi atacado por outro judeu que, aos gritos de “herege!”, brandia uma faca contra ele. Por anos Baruch guardou o manto cortado, resultado do ataque. O texto do cherem, ou expulsão dele da comunidade, dizia:

Spinoza será excomungado e expuso do povo de Israel. Por um decreto dos anjos, e pela ordem de homens santos, nós excomungamos, expelimos, amaldiçoamos e danamos Baruch de Spinoza, com o consentimento de Deus. O Senhor Deus não irá poupá-lo. A raiva e a fúria do Senhor irão abater-se sobre este homem, e descerão sobre ele todas as maldições escritas no Livro. 

Baruch não era apenas polêmico entre a comunidade judaica. A Igreja Católica, que não podia excomungá-lo porque ele já era um descrente, pouco depois decretaria que ler seus livros era pecado, os colocando no Index de Livros Proibidos.

O moço era um herege talentoso.

A ideia principal de Baruch era que a imagem medieval de Deus, um Ser Supremo que decidia tudo e todas as coisas, era uma simplificação equivocada. Para Spinoza, Deus não decidia cada detalhe da vida. Havia leis — infinitas, grandes, celestiais — e é por elas, dizia ele, que o divino age.

Este Deus não empurra o Sol ladeira acima pelos céus, diz Spinoza; ele cria um sistema que faça o Sol nascer e se pôr. Ele não decide quem cai doente, ou quem tem sucesso, quem morre ou vive. Este Deus de Spinoza não pune, não interfere, não fica bravo nem feliz. Ele é. Por suas leis, tudo acontece, tudo existe.

Deus, segundo Spinoza, age constantemente, e em todas as coisas. Deus é a substância de que o universo é feito, a essência. Para ele, substância significa matéria-prima, ou essência primordial.

“Exceto Deus, nenhuma substância pode existir ser criada”, ele escreveu. Ou seja: a natureza é feita com uma substância pura que emana de Deus. Essa substância se torna as folhas, as árvores, o mar e as estrelas. Assim, feita coisa, a substância deixa de ter um potencial infinito e se torna limitada, e portanto imperfeita. Mas, bem no fundo, ainda é a essência vinda de Deus.  

Bem no fundo, tudo é Deus.

Só que uma folha ou uma árvore tem atributos. É verde, ou marrom. É limitada. Deus existe além desses atributos, diz Spinoza; ele é a luz branca do cinema, antes de passar pelo filme, e virar cores que se movem na tela.

Esse Deus mais natural, que é mais amplo e muito além de um mero humano, deixou muita gente irritada. Se o Senhor dos Céus não está lá julgando e observando a humanidade o tempo todo, como é que ele precisaria de um clero aqui para cumprir os seus desígnios? Se Deus não exige autoridade para si, e age de maneira sutil, como é que os líderes religiosos vão dizer que têm autoridade delegada por ele? Isso não ecoou bem entre aqueles que se diziam representantes do monopólio do divino.

Deus, como observado por Spinoza, não é impessoal e alheio como o deus de Arquimedes; ao contrário, ele está infinitamente atento a nós, a tudo o que existe. Mas suas decisões não vêm através dos padres, ou dos templos. Elas chegam até nós como leis naturais, sejam leis físicas que fazem as plantas crescerem, ou leis metafísicas que regem a justiça, a graça, as bênçãos e o amor. Tudo é limpo e justo, com um relógio perfeito.

Isto abriu caminho para o progresso científico. Observar as leis da física é estudar o mecanismo de Deus, sues manifestações e sues leis. Meditar, intuir, usando o que Spinoza chamou de terceiro tipo de conhecimento, é alcançar ideias esclarecendo a essência das coisas, a metafísica, o fluir interno de Deus.

Na nossa vida, não ficamos desamparados na visão desse filósofo holandês. Deus existe na natureza e além da natureza; Deus habita em nós e em tudo mais e ele nos chama, constantemente, a mergulhar na sabedoria através do que Spinoza chama de amor:

“A libertação consiste em um constante e eterno amor por Deus, e no amor de Deus pelos homens.”

Amor, nos escritos de Spinoza, significa uma entendimento além do intelecto, uma união, a harmonia de saber-se ligado. Deus é, para sempre, perfeito por ser a essência pura da qual vem toda forma; nós, humanos, somos limitados até que deixemos de ser finitos e entremos na essência do infinito.

Deus é o poder que sustenta tudo, os vôos dos pássaros, as bênçãos dos anjos, os passos dos santos; e também o brilho dos teus olhos, e o calor do teu coração.
 

SOBRE SATYANATHA

Satyanatha é o nome monástico de Davi Murbach, que nasceu no Brasil e viveu como monge durante sete anos em um dos mais ortodoxos monastérios indianos. Seguindo a linha filosófica de Saiva Siddhanta, do Sul da Índia, tornou-se um dos editores da revista internacional Hinduism Today. Cursou teologia comparada ocidental-oriental e metafísica.  É autor de The Anatomy of God , palestrante e instrutor de meditação.

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